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A alteração da ordem natural: mães que sobrevivem a seus filhos.[1] Breves reflexões
por Ricardo Aparecido Dias raparecido7@itelefonica.com.br Não há quem não tenha na família ou no círculo de amizades casos de mães envelhecentes[2] e ou idosas que perderam filhos jovens. Essa questão tem implicações que podem ser tratadas sob a perspectiva da antropologia e, dentro desta, sob aspectos da saúde e do envelhecimento. Este artigo pretende discutir se há uma explicação cultural para a maior aceitação da morte da mãe antes da morte do filho e investigar os fatores que dificultam a aceitação da alteração dessa ordem, ou seja, a morte do filho antes da morte da mãe. Como também pretende verificar as conseqüências físicas e psicológicas causadas em mães que passaram por essa situação. A respeito de uma ordem natural Grupos humanos primitivos, tais como os indígenas brasileiros de forma geral e as tribos negras africanas, antes de terem suas culturas modificadas pelos colonizadores, acreditavam em uma ordem natural dos acontecimentos, em que mães envelhecentes ou idosas deveriam morrer primeiro que os seus filhos. Essa crença fazia parte da cultura desses povos e se justificaria, entre outros aspectos, pelas tarefas primordiais reservadas à mulher nas sociedades primitivas. Uma dessas missões é procriar. A importância social da mulher estava ligada a sua utilidade para o grupo enquanto reprodutora. Perder uma mulher em idade fértil seria um prejuízo não só para o cônjuge, como também para a comunidade. Até hoje, no caso extremo em que o obstetra tenha que optar pela sobrevivência da mãe ou do filho, faz parte da nossa cultura ocidental e judaico-cristã que essa escolha recaia sobre a mãe, que poderá ter outros filhos, e não em favor do filho. A outra função que se espera da mulher é a de cuidar do filho. Ao contrário do pai, a mãe é “cuidadora” por natureza. E, diferentemente de muitas outras espécies, o ser humano recém-nascido depende totalmente de sua mãe, tanto física quanto psicologicamente. É preciso que essa mãe tenha saúde, no sentido mais amplo do termo, para criá-lo. Encerrado o período fértil, que coincidia com a entrada do filho na idade adulta, essa mulher deixava de ser tão importante para o grupo. Seu filho já produz. Ela só consome. Eis aí uma possível origem para essa ordem natural de que a mãe deve morrer primeiro que seu filho. O que fazer se a mãe socialmente velha, embora enfraquecida pela idade, ainda é saudável? Diante disso, muitos grupos humanos primitivos praticavam o exílio compulsório do idoso em um lugar inóspito, o que significava uma sentença de morte. Há vários relatos a respeito de gerontocídio, até mesmo em sociedades modernas. Um deles é mostrado no filme Balada da Narayama, de Shoei Imamura, em que a mãe, idosa, com dentes perfeitos, ao ver que seu filho adulto está casado e não precisa mais de seus cuidados, quebra os próprios dentes (o que naquela comunidade significa perda da autonomia e respectivamente velhice) e obriga-o a levá-la para o Monte Narayama, para que a ordem natural dos acontecimentos seja cumprida. O que leva à alteração da ordem natural? A tradição cultural de que os filhos devem sobreviver às suas mães é alterada, a princípio, por fatores não naturais. Durante a Idade Média e até a Idade Moderna, filhos adultos - guerreiros ou caçadores - corriam mais riscos de morte que as filhas adultas - confinadas à casa. Nos dias de hoje, a violência urbana e suburbana têm tirado a vida de rapazes e moças, indiscriminadamente. Somente no Brasil, 600 mil jovens morreram assassinados nos últimos 20 anos. A morte tratada de forma coletiva tende a ser menos impactante que a analisada de maneira individual, por isso considera-se oportuno individualizar os casos dentro dessa escalada de violência, como o do casal de namorados assassinado quando acampava durante um fim de semana e o dentista morto por policiais por ter sido confundido com um bandido. Há ainda o traficante que foi morto pela polícia em casa, em um morro carioca, e trazido para o asfalto, em um carrinho de mão. Esses jovens, vítimas ou algozes, morreram antes de suas mães. A conseqüência social dessa situação é significativa. As camadas mais simples da população vêem o filho como alguém que vai ajudá-las a prover a casa durante a envelhecência e ampará-las materialmente na velhice. A perda de um filho adulto, para essas pessoas, significa empobrecimento, a perda de um capital que estava sendo constituído. Quase sempre, à perda de um filho adulto sucede um grave problema de saúde. Calixto de Souza, em depoimento verbal, relata a doença da esposa após a perda do filho caçula do casal por afogamento: "Ela ficou com as mãos entrevadas por causa de um reumatismo que a impede de fazer qualquer coisa". Há outros fatores culturais que explicam a sobrevivência de mães em relação a seus filhos nos dias de hoje. Embora ainda haja sociedades em que a mulher continua submissa, ela alcançou, desde o século passado, o direito ao prazer dissociado da procriação; o adiamento do início e a prorrogação do período de vida dedicado à maternidade. E faz uso desses direitos em função de uma carreira profissional e de uma utilidade social que não se restrinja a de ser mãe. Lucinha Araújo e Cazuza A idéia de morte natural está ligada a um limite para a vida humana (120 anos), após o qual os órgãos simplesmente param de funcionar, sem causa patológica. Sendo assim, não se poderia falar de morte natural de um jovem. Essa situação de morte seria causada por um fator traumático (acidente, assassinato, suicídio), ou patológico (doença hereditária ou adquirida que cause a degeneração precoce do organismo). Cazuza é uma entre milhares de vítimas da AIDS no Brasil. E, por questões sociais, a síndrome se estabeleceu a princípio especialmente entre jovens e adultos. Só depois se manifestou em pessoas idosas. Daí a certeza de que há milhares de mães anônimas que sobreviveram aos seus filhos mortos por essa doença. Dentre as que perderam filhos para a AIDS, Lucinha Araújo é apenas a que tem maior visibilidade. O que diferencia Lucinha é que a morte do filho resultou para ela em uma continuidade de vida de muito mais qualidade humana e social. No livro "Cazuza. Só as mães são felizes", ela declara: Se essa doença não tivesse se infiltrado em minha família, estaria eu aqui hoje, fundadora e presidente da Sociedade Viva Cazuza? Uma casa modesta, onde trinta crianças que receberam de seus pais a herança do HIV podem alcançar uma qualidade de vida que eu e meu marido João pudemos, ao menos, proporcionar ao nosso único filho. Estaria eu aqui? Certamente não. (1997: 64)
Maria Lúcia da Silva Araújo nasceu em Vassouras, Rio de Janeiro, em 2 de agosto de 1936. Filha de uma família de classe média, estudou no Colégio Sacré Coeur de Marie, para moças da elite do Rio de Janeiro, desde os oito anos de idade até completar o Curso Normal.
Desde pequena, mostrava talento para a costura, e ainda adolescente já ganhava seu próprio dinheiro com as costuras que fazia. Casou-se em 16 de março de 1957, também no Rio de Janeiro, com João Araújo, então divulgador de discos da Gravadora Odeon. A respeito dos pais, Cazuza dizia: A minha música faz parte de uma história que começou quando o meu avô, dono de um engenho em Pernambuco, resolveu morar em cima do areal do Leblon. Ali nasceu meu pai, João Araújo, que se casou com uma moça linda, Lucinha, que cantava como passarinho. (1997:31)
Problemas ocorridos durante o parto fariam com que Lucinha não conseguisse mais engravidar, apesar de intensos tratamentos. Isso, mais o seu comportamento competitivo, fizeram-na tornar-se extremamente rígida na educação do filho.
Lucinha diz em seu livro, escrito a partir de depoimento dado à jornalista Regina Echeverria, que: A carreira de João na indústria fonográfica o obrigava a passar muito tempo fora de casa e Cazuza foi crescendo sob a minha tutela. E como eu era rígida (...) Não sei por qual demônio eu era possuída quando batia em meu filho para que Cazuza comesse. Beliscões, tapas, chineladas, gritaria. O inferno se mostrava todo em casa, nas horas das refeições, pois ele era bastante rebelde na questão comida e eu, uma perfeccionista obstinada em seguir regras de conduta, que acredita piamente serem as melhores, as certas, as corretas. (1997:64)
Quando Cazuza tinha cinco anos de idade, Lucinha matriculou-o no Colégio Santo Inácio, de padres jesuítas, e controlava suas notas exigindo que ele tirasse sempre dez. A única forma de Cazuza escapar do comportamento autoritário da mãe era refugiar-se no carinho das avós.
Cazuza e Mãe (1984)* Outra declaração de Lucinha revela o quanto ela era obcecada pelo filho: A pior constatação de minha vida foi descobrir que meu filho viveria apesar de mim. Era tamanha a responsabilidade que sentia em relação a ele que, de repente, quando ele se transformou numa pessoa pensante e, de modo geral, com uma cabeça muito diferente da minha, me percebi totalmente impotente. (1997:91)
A partir daí, Lucinha conta a sua descoberta em relação ao uso de drogas por parte do filho. E de quando lhe perguntou, de forma direta, se ele era homossexual. Ao que ele respondeu: "Eu não sou nem uma coisa (heterossexual) nem outra (homossexual). Nada é definitivo na vida” (1997:108).
O filme Cazuza, o Tempo não pára, de Sandra Werneck e Walter de Carvalho, aborda os dez últimos anos da vida de Cazuza. O breve espaço de tempo entre 1980 e 1990, em que ele se tornou: o vocalista da Banda Barão Vermelho, o astro da música jovem, o compositor de talento, a unanimidade da música brasileira de forma geral, um doente de Aids e o ídolo morto. Um breve tempo para tantos acontecimentos.
Se não tivesse escrito esse livro depoimento, seria difícil imaginar o quanto Lucinha, essa mãe superprotetora, sofreu e lamentou a doença e a morte de seu filho, no auge da carreira, aos 32 anos. Sua morte modificou de tal maneira minha existência que fui me deixando aceitar essa missão que se impôs e me coloca hoje no papel de proteger vidas, poucas que sejam, todas as que eu possa, onde a sombra do HIV positivo ronda perversa nessa guerra fria contra o monstro invisível, palpável apenas no corpo que definha à nossa frente, transformando nossa impotência em quase loucura. (1997:15) Cazuza morreu em 7 de julho de 1990, quando Lucinha tinha 54 anos. E Lucinha começou uma nova vida após isso. Além de presidir a Fundação Viva Cazuza, ela tem sido um exemplo de garra e determinação na divulgação da memória do filho. A dona de casa e costureira, que gravou um disco porque o marido era diretor da gravadora, mas que nunca seguiu adiante em seus projetos pessoais, tornou-se uma empreendedora. Seu livro de depoimentos sobre Cazuza está na nona edição. O filme a respeito da vida dele contou com a sua imprescindível colaboração. Em um dos programas de Hebe Camargo (14 de junho de 2004, pelo SBT), Lucinha disse: Cazuza viveu dez anos como se fossem mil. Creio que para ele valeram mais a pena do que se fossem mil anos vividos a dez. Para se pensar É difícil justificar, em termos naturais, a cultura de que os filhos adultos devem sobreviver às mães envelhecentes e ou idosas. E continua sendo muito mais difícil aceitar quando o inverso acontece. A professora Maria Helena Villas Boas Concone – que fez uma celebração em memória de sua filha durante uma de suas aulas – lembra que não há designação, na língua portuguesa, para quem perdeu um filho adulto. A criança que já não tem os pais é órfã. O adulto que perde o cônjuge é viúvo. E quem perde o filho adulto, como pode ser chamado? A sobrevivência de mães idosas e ou envelhecentes em relação a seus filhos poderá se tornar cada vez mais recorrente, na medida em que aumenta a expectativa de vida do idoso, e também, a violência e o número de acidentes fatais nos centros urbanos, envolvendo jovens e adultos. Esses breves apontamentos nos indicam que essa questão precisa e merece ser aprofundada, pois se trata de uma realidade cada vez mais presente nos lares deste país. Referências ARAÚJO, Lucinha. Cazuza. Só as mães são felizes. Depoimento a Regina Echeverria. São Paulo: Globo, 1997. * Fotografia retirada de http://www.cazuza.com.br __________________________ Ricardo Aparecido Dias - Ator, de formação prática, e jornalista, de formação acadêmica, graduação na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, em 1981. Professor de Marketing da Faculdade Fernão Dias e de Comunicação Verbal e Comunicação Comparada do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Unifieo. Professor de teatro do Grupo Vida, de Barueri (SP), uma entidade que proporciona lazer e atividades culturais para idosos. [1] Este artigo foi escrito a partir de conceitos discutidos nas aulas da disciplina Envelhecimento, Cultura e Saúde, ministrada pela professora doutora Maria Helena Villas Boas Concone, no Programa de Gerontologia da PUC-SP. E a ela, que passou por essa experiência e soube transformar sua dor em carinho e amizade para com todos com os quais convive, dedico este artigo. [2] A palavra envelhecência é emprestada de um artigo do dramaturgo Mário Prata (porque considero mais adequado usar envelhecente, de acordo com o termo que lhe dá origem, que é envelhecer, embora ele utilize a grafia envelhescente), publicado no jornal O Estado de S. Paulo (18/08/93). Trata-se, portanto, de um neologismo para denominar o período de vida entre 45 e 60 anos. De acordo com ele: “A envelhecência nada mais é que uma preparação para entrar na velhice, assim como a adolescência é uma preparação para a maturidade. Engana-se quem acha que o homem maduro fica velho de repente, assim como da noite para o dia. Não. Antes, a envelhecência”. |
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