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A sedução das viúvas

Manoel Carlos

Minha mãe costumava dizer, suspirando:

– Tenho medo de ficar velha.

E meu pai, invariavelmente, retrucava, também suspirando:

– E eu de não ficar.

O casamento deles nem sempre foi feliz. Fomos testemunhas, eu e meus irmãos, de brigas com vozes alteradas, batidas de porta, saídas súbitas da mesa do almoço e de outras cenas comuns na maioria das relações matrimoniais. Um dia perguntei a meu pai por que ele e minha mãe brigavam tanto e ele me respondeu que isso fazia parte dos casamentos duradouros.

Apesar do clima muitas vezes beligerante, nenhum dos dois queria morrer antes do outro. Nem depois. Queriam mesmo era que a morte os colhesse juntos, num mesmo momento. Mas, como isso ocorre muito raramente, acabou que ele morreu mais cedo, dois anos antes dela, que ficou viúva aos 90 anos, muito feliz de ter envelhecido, apesar da ausência daquele que foi seu companheiro por mais de sessenta anos. Sessenta anos de freqüentes atritos e sucessivas reconciliações.

Estou contando esse episódio familiar porque dele me lembrei no último fim de semana, conversando com meus filhos sobre essas perdas, quando um casamento se desfaz pela intervenção da morte, deixando o sobrevivente entregue à solidão, que muitas vezes pode resultar também num renascimento. Pelo menos é o que eu vejo constantemente, quando um homem ou uma mulher ficam viúvos, mesmo quando isso ocorre na terceira idade. Parece que uma brisa passa pelo que ficou, deixando-o mais disposto para continuar a caminhada. Um vizinho meu, que tinha lá seus 60 anos, ao enviuvar trocou de carro, colocou lentes de contato, passou a caminhar na praia, perdeu a barriga, começou a namorar uma jovem trinta anos mais nova e mudou-se para uma cobertura na Barra. Rejuvenesceu.

E, como palavra puxa palavra e assunto puxa assunto, depois dessa conversa com meus filhos, já na cama, após uma extenuante programação de domingo, acabei me lembrando de um velho amigo dos meus tempos de rapaz, o Gustavo, que tinha paixão por viúvas.

– Não existe mulher mais sedutora, mais atraente, do que uma viúva jovem e bonita – dizia ele.

– E rica – acrescentava alguém que estivesse por perto.

– Não necessariamente – devolvia Gustavo, porque viúva jovem e bonita encontra fatalmente homem rico (solteiro, casado ou também viúvo) que vai ter imenso prazer em mantê-la no luxo.

E Gustavo não se contentava em sustentar essa teoria. Fazia mais. Perseguia, por assim dizer, as viúvas. Lia diariamente o obituário de todos os jornais e quando encontrava a informação da morte de um homem entre 30 e 35 anos, "deixando viúva", ele comparecia à missa de sétimo dia, ansioso por ver a cara da chorosa mulher. Se bonita, ia pra fila de pêsames, com frases previamente estudadas, tentando consolar a inconsolável, num comportamento típico de personagem de Nelson Rodrigues. Gustavo não era rico, mas era solteiro. E um dia... deu-se bem. Viúva jovem, bonita e, ainda por cima, endinheirada e sem filhos apaixonou-se por ele, não na missa de sétimo, mas de trigésimo dia. E, como nem mesmo os deuses conseguem mudar nosso destino, Gustavo e Lívia casaram-se antes que o falecido marido tivesse completado seis meses em outro mundo.

 

 

 

 

 

Na época éramos todos jovens e comparecemos ao casamento, deslumbrados com a beleza da noiva. Seguiu-se uma longa lua-de-mel na Europa, com passagens por Paris, Roma, Madri, Londres, Lisboa, de onde recebíamos postais que davam conta da felicidade do casal. Num deles ficamos sabendo que eles iriam morar em Brasília quando voltassem. Sim, porque Gustavo tinha uma vocação explícita para a política e queria estar perto do poder, que naquele mesmo ano havia se instalado no Planalto Central. Já retornava ao Brasil com lugar garantido num ministério, por influência da família da mulher.

Recebi do Gustavo uma última mensagem, datada de 1962, em que ele me dizia estar doente, fazendo muitos exames, e que os médicos ainda não tinham um diagnóstico fechado. Um mês depois dessa notícia, recebi um telefonema da viúva, contando da morte precoce do meu amigo. Gustavo tinha então 34 anos e Lívia, 28. Era sua segunda viuvez. E ainda tão jovem!

Dos velhos amigos, só eu me mandei para Brasília, no dia da missa de sétimo dia. Igreja cheia. Lívia no primeiro banco, charmosa em seu vestido preto de bolinhas brancas, um véu cobrindo seu delicado rosto. As lágrimas deslizavam suavemente, tão suavemente que nem pareciam tocar sua pele. Fiquei pensando em como a tristeza embeleza as mulheres! Quando a missa acabou, formou-se a fila para os cumprimentos. Coloquei-me bem atrás, acompanhando com os olhos os homens que se aproximavam e abraçavam Lívia, dizendo sempre algumas palavras em voz baixa, certamente de conforto.

Quando só faltavam três ou quatro pessoas para chegar a minha vez de consolá-la, desisti. Saí da fila. Fugi, posso dizer, da tentação, já que eu estava livre e desimpedido, separado da minha primeira mulher, e Lívia permanecia irresistível. Um exemplo perfeito da tese do meu falecido amigo sobre a sedução das viúvas.

Naquele mesmo ano fiquei sabendo que ela estava novamente casada. Com o chefe do seu falecido marido. Alguém que certamente estava lá, na missa de sétimo dia, balbuciando palavras de consolo no ouvido da inconsolável.

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Fonte: http://veja.abril.com.br/vejarj/300305/cronica.html

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