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O Banheiro da Arquiteta Lúcia*
Por Mário Prata
Há duas semanas, escrevi aqui sobre banheiros e arquitetas. Pois uma
arquiteta, chamada Lúcia Carvalho, me mandou o texto abaixo. Na
minha crônica eu dizia que gostaria de ser arquiteto, se não fosse
escritor. Pois a Lúcia só não será escritora se não quiser.
"Eu li tua matéria sobre banheiros. Este assunto me intriga, também
sou arquiteta e fiquei pensando um pouco mais sobre isso e resolvi
te contar mais umas coisas sobre este lugar completamente
clandestino e indiscutível.
Pensa bem. Existe um grande respeito das pessoas por duas situações.
Uma delas é o banheiro. É assim. Cadê o fulano? Tá no banheiro.
Pronto. Ninguém fala mais nada, ninguém bate na porta, ninguém
atrapalha. Claro que, se o tal fulano demora, as pessoas riem um
pouco, mas um homem no banheiro é digno de respeito total. É a mesma
coisa quando alguém vai para a Europa.
Ninguém discute, sempre te cobram, te acham em qualquer canto aqui
neste país, te solicitam o dia inteirinho com trabalhos para ontem,
sempre, mas quando você fala que não pode porque vai para fora do
país, todo mundo aceita, resignado, sensato, e você fica importante.
Estar na Europa e estar no banheiro, quase a mesma coisa.
Mas o assunto, o assunto são os banheiros que hoje em dia na nossa
profissão são talvez a parte mais importante. Horas e horas de
reunião com o cliente discutindo cada detalhezinho deste lugar.
Posso estar exagerando, mas cada vez mais tem acontecido assim. Não
sei o que houve com as pessoas, sinceramente. Quando eu era menina,
a gente tinha só um banheiro em casa, fora o da empregada. Quase
todas as casas eram assim, o banheiro da família, o banheiro da
empregada. A gente, às vezes, até usava o banheiro da empregada
quando precisava. Depois inventaram que cada casa, apartamento, por
mais "ovo" que fosse, tinha que ter um lavabo. Como se as pessoas
que vão te visitar não pudessem ver o teu banheiro, como se fosse
proibido, tivesse segredos por lá.
Hoje em dia, quando uma casa não tem lavabo, eu fico até
envergonhada. É tão raro entrar no banheiro dos outros que
inconscientemente eu acho aquilo meio enigmático, misterioso, fico
verificando os produtos de beleza, os xampus, os armários, a marca
da toalha. Acho que para ver se é igual, pior ou melhor que as
nossas, que também ninguém deve ver. Não tem por quê, mas a gente
acaba olhando mesmo. Quando eu me formei, é, foi mais ou menos nesta
época, que começou a aumentar. O negócio de "quarto suíte". Quarto
com banheiro, individual, cada um tem de ter o seu, nem que seja um
bebezinho. Todo mundo queria o seu banheiro próprio, ninguém ia
saber do seu cheiro, da sua bagunça, ninguém vai usar sua pasta,
nada. Era só seu e inventaram que aquilo era o máximo. A maioria das
casas de hoje em dia tem mais privada do que gente morando, pode
reparar.
Mas tinha um problema ainda naquela época. O casal. O casal tinha de
dividir o banheiro, e geralmente "o casal" significa os "donos da
casa", e os donos da casa, bem eles, os mais importantes, eles
tinham de dividir o banheiro.
Pimba! Tiveram uma idéia. O banheiro do casal ia ser maiorzão, bem
grande mesmo, com duas pias, uma para cada um. Foi assim por muito
tempo, era um grande luxo ter duas pias, uma do ladinho da outra.
Mas não estava bom, tem casal que não é tão desencanado que um
escova o dente e o outro usa a privada, assim junto. Resolveram
(acho que na verdade quem resolve e dá as idéias são mesmo os
arquitetos, nós, infelizmente) que era melhor então separar as duas
pias das privadas e bidês e chuveiros, começaram a parecer umas
cabininhas com o vaso, bidê (esse então dá o maior assunto em
reunião...) e chuveiro longe das pias.
Mas um dia acharam que era melhor cada um ter o próprio banheiro,
separado.
Olha os prédios de luxo de hoje como são. Tem o banheiro da mulher,
esse geralmente tem banheira, tem cara de mulher, mármore rosa,
muito espelho, essas coisas, e do marido, austero, clássico,
menorzinho, mas separado. Na verdade, acho que a gente quando vai
projetar para uma família a gente quase que só faz banheiro. É uma
quantidade sem fim, imensa, estúpida. Se procriaram. Agora até
deixam de ser banheiros, são "salas de banho". Pois é.
Nas reformas então, nem se fala, a maioria só quer mexer nos
banheiros. Toda vez é assim: a gente vai à reunião com o casal,
moderninho, filhos, o cara já vai falando: olha, nós queremos
reformar o apartamento/casa, a reforma é a seguinte: queremos fazer
um outro banheiro para nós (a mulher já vem nesta hora com um monte
de revista recortada), queremos fazer outro banheiro para as meninas
(mais revista), queremos um banheiro para a babá, mas precisamos
muito mesmo de um para o motorista e um para o guarda na guarita
nova, e, claro, queremos reformar o lavabo (mais revista e o cara já
fica bravo com a mulher) e reformar os outros, antigos. Só banheiro?
E o resto da casa, eu pergunto? Só banheiro, o resto da casa ta
ótimo, ele fala. Quando eles acabam de falar, já tem de comprar pelo
menos umas setes privadas, cinco bidês, um monte de cubas, cada uma
de um jeito, e chuveiros, e aquele monte de revista me olhando.
Somos agora arquitetos higiênicos, é um grande símbolo de status ter
privadas em excesso, vai entender... O assunto dentro do mundo dos
arquitetos vai crescendo, é uma maluquice, não acaba nunca, as casas
daqui a pouco serão uns banheirões com umas salinhas adjacentes. E
num outro dia dei até entrevista para uma dessas revistas, só pedi
para não tirar foto, credo.
Mas o pior, o pior é que as pessoas nunca experimentam antes,
entende?
Ninguém compra privada e bidê sentando neles, eu não entendo por
quê.
Deveria sentar, claro, verificar se é cômoda, se é alta, baixa,
fina, se o posicionamento das pernas (isso no caso dos homens, em
pé) é bom, essas coisas. Mas ninguém faz, também, pensa bem, fazem
umas lojas lindas de banheiro, todas chiques, brilhantes, parecem o
palácio das mijadas (palavrinha mais feia, perdões), colocam
(literalmente) os vasos sanitários como tronos, quem tem coragem de
posar de rei na frente da vendedora-simpática-de-preto?".
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* Crônica
publicada no Estadão na coluna do Mario Prata
http://www.marioprataonline.com.br/obra/cronicas/o_banheiro_da_arquiteta.htm
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