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Por João Batista Alves de Oliveira* Já era típico da pequena cidade do interior, a Dona Emilia, debruçada na janela. Era só amanhecer o dia e lá estava ela em seu posto. Era uma janela bem enfeitada, afinal, sendo já um patrimônio da cidade, não poderia ser diferente. Um pouco antes de o dia clarear, do movimento das pessoas, Dona Emilia já estava desperta, arrumada, cuidando da limpeza e regando as belas flores que davam mais vida à janela. Cumpridas essas tarefas era só tomar o posto. Logo que se colocava debruçada começava a receber as cordiais saudações dos moradores que iam e que vinham. O único momento sagrado de abandono do posto era a hora de ir à missa. Era só o padre, tipicamente em sua batina preta passar pela janela e Dona Emília, após a cordial saudação ao pároco, já se encaminhava para a igreja. Na missa rezava e agradecia a Deus por tudo de bom que teve e tem na vida. Rezava por todos aqueles que passavam diariamente sob a sua janela e por muitos outros. Sempre foi uma boa pessoa. Era típico dela preocupar-se com todos. Acabada a missa, Dona Emília já estava de volta e debruçada; nem havia demora, pois café já havia tomado pela manhã antes dos cuidados com a janela. Conforme as horas passavam, mais pessoas trafegavam pela sua janela. Conhecia todos pelos nomes e apelidos. Perguntava por um, por outro e pelo fulano também. Recomendava chás, novenas se preciso fosse. Foi num desses dias, diante do imenso desfile de pessoas pela sua janela que Dona Emília se deu conta de uma coisa: a grande maioria das pessoas que pára para uma conversa era velha. Então pensou: Por que será que os jovens não param? Por que será que passam e só rapidamente cumprimentam? Percebeu que isso acontecia desde há muito. Não parava de pensar nisso e começou a ficar triste. A janela parece que perdeu um pouco da cor. E pasmem, até atrasou pela manhã em chegar à sua janela. No dia em que chegou atrasada ao seu posto, estava debruçada olhando o movimento, mas quase não enxergando nada. Esse “quase nada” foi repentinamente rompido por uma imagem branca que de início não conseguia entender o que era, pois estava absorta em sua solidão de ultimamente. De repente a imagem branca disse “Bom dia, Dona Emilia! -de uma forma cordial e íntima. Dona Emília então foi despertada de sua solidão e viu que era um jovem de branco que estava à sua frente e falando com ela. Prontamente respondeu: “Bom dia, meu filho!". A vida parece que voltou à janela. A face de Dona Emilia foi tomada de alegria. Até as flores parece que ficaram com mais cores. E lá se foi o jovem rapaz. No outro dia cedo, a velha senhora já estava debruçada na sua janela, esperando o jovem rapaz de branco passar. Passou um, passou outro, o pároco. Ela então foi à missa e voltou. Novamente passa um, passa outro e de repente surge o jovem rapaz. Antes mesmo que este pudesse falar algo, Dona Emília disse: “Bom dia, meu filho, que você tenha toda felicidade no dia de hoje”. O jovem parou frente à janela e retribuiu “Bom dia, Dona Emilia, que tenha hoje uma síntese da felicidade de toda sua vida”. Aproveitou para perguntar-lhe algo – “Dona Emilia, pode me indicar um chá bom pra acalmar?”. Dona Emilia, não só falou o tipo de chá, como explicou com detalhes do preparo, a quantidade da erva, da água, o nível do fogo, que horário tomar, se podia ou não colocar açúcar. Terminada a explicação do chá, lá se foi o jovem rapaz de branco embora, ficando Dona Emilia debruçada em sua janela e radiante de vida. O cumprimento às outras pessoas parecia até mais intenso. E assim os dias se passaram. Todos os dias o jovem rapaz passava e conversava com Dona Emilia. Outro dia, ele perguntou se ela sabia uma oração para um enfermo; depois sobre velhas cantigas de ninar; outro dia, sobre a história da Santa Casa da cidade; sobre a vida de Dona Emilia. No dia que lhe foi perguntado sobre sua vida, a velha senhora saiu da sua janela, era domingo, e veio sentar-se à porta, convidando-o a sentar-se com ela. Começou a contar sobre a sua vida. Contou-lhe de sua infância, de sua adolescência, de seu casamento, de seus filhos, de sua família. De repente o silêncio toma conta da conversa e lágrimas caem pela face da velha senhora. O jovem rapaz limita-se a ficar quieto e num gesto sereno, toca-lhe a face, aparando suas lágrimas, enquanto com a outra mão acaricia suas mãos repletas de manchas senis. A velha senhora, como que tomada de felicidade, faz cessar suas lágrimas. Esquece-se do abandono dos familiares a que foi submetida e considera o toque do jovem rapaz um dos melhores atos de amor de sua vida. Nesse momento, dá-se conta de que nunca perguntou quem era o jovem rapaz e por que ele parara para conversar, para pedir receitas, conselhos, para saber histórias e por que ele a tocara com tamanho carinho. Pergunta-lhe então: “Meu jovem rapaz, quem é você? Por que tem dedicado parte de seu precioso tempo com uma velha senhora? Por que busca conhecimento em mim quando pode saber tudo pela tecnologia? Por que escuta minha história, apara minhas lágrimas e afaga minhas mãos?”. Responde-lhe o jovem rapaz: “Dona Emilia, sou o novo médico recém-chegado a esta cidade. Dedico parte do meu precioso tempo com uma velha senhora, perguntando-lhe histórias, quando poderia saber através da tecnologia, perguntando-lhe sobre chás calmantes, quando poderia utilizar medicamentos, perguntando-lhe sobre novenas, quando poderia ser frio e agnóstico, porque só o tempo da velhice tem respostas sinceras para as pequenas coisas da vida. Escuto sua história porque não é essa somente a sua, mas a de quase todos os velhos no mundo atual; o abandono é tão comum! Aparo suas lágrimas e afago suas mãos porque esse simples toque representa um gesto maternal, um gesto sagrado que retoma o sopro de vida necessário para se manter no caminho”. E daquele dia em diante, Dona Emilia, a velha senhora e o jovem médico tornaram-se amigos e se esqueciam, enquanto juntos, do tempo dos relógios, pois sabiam que todos devemos passar do tempo chronos que nos devora (o tempo dos relógios) para o tempo kairós que nos desperta (o instante, o instante propício). Pois já não temos o tempo de “vir a ser”, mas o tempo de Ser, na intensidade do instante. Já não temos tempo, mas instantes... para viver, instantes favoráveis, kairós.[1] *João Batista Alves de Oliveira, médico (Clínica Médica) e mestrando em Gerontologia (PUC-SP). [1] Do livro A arte de morrer – Tradições religiosas e espiritualidade humanista diante da morte na atualidade- Maria de Hennezel e Jean-Yves Leloup. Vozes. 7ª. Edição, 2004. |
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