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Uma
certa
idade
é a
idade
certa
Por
João
Batista
Alves de
Oliveira
Diretamente
para
o
Portal
Dona Lúcia,
pronta
para
sair
para
seu
trabalho
voluntário
no
clube
de
mães
da
Igreja
de
São
Benedito –
vestido
branco
florido,
brincos
e
colar
combinando,
sapato
baixo
e
sem
salto
e
bengala
na
mão
direita.
-
Mamãe,
a
senhora
não
pode
ficar
fazendo
isso.
Não
tem
idade
mais.
Vamos ao
médico
e vai
ver
como
ele
vai
confirmar
isso.
No
outro
dia,
no
médico:
-
Doutor,
minha
mãe
já
tem
mais
de 90
anos
e
cisma
em
ficar
saindo de
casa
para
fazer
trabalho
voluntário
num
grupo
de
mães
que
tem na
igreja
perto
de
casa.
Ela
não
tem
mais
idade
pra
isso
e
não
me
ouve.
O
médico
examina
dona
Lúcia,
escuta
sua
história,
suas
queixas,
revê os
remédios
em
uso
e
então
responde à
filha:
-
Realmente,
sua
mãe
tem
mais
de 90
anos
de
idade.
Porém,
tem uma
saúde
excelente,
coisa
que
muitas
pessoas
com
um
quarto
da
idade
dela,
atualmente
não
têm. Tem
mais
de 90
anos,
porém
tem uma
vitalidade
e
um
sentido
de
vida
que
a mantém
saudável.
Eu
acho
que
ela
não
deve
mesmo
ficar
cismando
em
realizar
um
trabalho
voluntário,
mas
deve realizá-lo
sim,
enquanto
tiver
vontade,
disposição
e
amor
pra
isso.
Continua o
médico:
-
Dona
Lúcia, tome certinho os
remédios
que
lhe
dei e continue
com
sua
vida
como
a
senhora
conduz.
Ser
saudável
inclui
ter
coragem
e
vontade
para
as
coisas
da
vida,
assim
como
a
senhora
tem.
Responde
ela:
-
Obrigada
doutor,
é
isso
que
realmente
acho e
que
minha
filha
teima
em
não
acreditar.
A
vida
de uma
pessoa
não
se
encerra
em
uma
determinada
idade.
Não
há
um
tempo
definido
para
realizar
tarefas
na
vida.
O
tempo
presente
é o
momento
presente.
Naturalmente há uma
tendência
em se
acreditar
que a velhice é a
fase do
fazer
nada,
a
fase
do
sentar
e
esperar
a
morte
chegar.
A
sociedade
capitalista
atual
determinou
que
o
idoso,
aquele
que
não
é
mais
produtivo
e
nem
consumidor,
não
tem
seu
valor;
afinal,
se
não
produz e
não
consome,
que
bem
pode
trazer?
Essa
sociedade
quer
transformar
o
idoso
em
um
Objeto.
Muitas
vezes
a
pressão
é
tanta
que
ele
realmente
acaba se excluindo (algumas
vezes
por
ser
a
pressão
demais
ao
seu
psiquismo,
outras
porque
não
tem
opção).
Transformar-se
em
Objeto
é
perder
o
sentido
da
vida,
o
sentido
de
si
próprio,
perder
a
sua
história,
não
conseguir
se
apropriar
de uma
verdade.
A velhice é a
fase
em
que
isso
mais
ocorre. O
idoso,
fragilizado
por
várias
contingências
da
vida,
por
vezes
fica a
mercê
de
terceiros.
Terceiros
esses,
que
ainda
não
na velhice,
não
a entendem, encaram-na
como
uma
fase
distante,
como
se
não
fosse essa a
realidade de
todos.
Uma
forma
de tornar-se
Objeto
na velhice é
ser
vítima
de
um
sistema
que
valoriza o
jovem.
O
idoso
passa
a
ser
só
um
velho
que
reclama,
que
tem
que
tomar
remédios,
ir
ao
médico,
fazer
exames.
Mas será
que
ser
velho
é
isso?
Será
que
só
lhe
resta
doenças,
remédios,
consultas médicas? Será
que
não
há outras
coisas
importantes,
valiosas na
vida
do
idoso?
Será
que
não
há
alegrias?
Será
que
dor
e sofrimento
são
mandatários
no
idoso?
É
certo
que
depois
de
muitos
anos
de
vida
o
organismo
precisa
de uma “forcinha”,
através
dos
médicos.
O
coração
depois
de
tanto
bater
ininterruptamente
vai
acabar
precisando de algumas
correções
para
o
bom
bater
por
um
tempo
mais
– é, no
entanto,
um
coração
que
bate
com
uma
cadência,
não
só
em
ritmo
cardíaco
regular
de
dois
tempos
como
dizem os
médicos,
mas
com
uma
cadência
própria
de
sentimentos
acumulados
durante
a
vida;
os
pulmões
que
tanto
respiraram
já
não
respiram tão esplendidamente,
mas
cumprem
bem
sua
função,
ainda
que
alguns
precisem de uma ajudinha a
mais
– no
entanto
são
pulmões
que
além
do
murmúrio
vesicular
difusamente
presente,
com
ou
sem
ruídos
adventícios,
como
dizem os
médicos,
respira
os
odores
sutis aprendidos no
passar
dos
anos;
os
ossos
já
não
são
tão
firmes
quanto
antes,
e
um
cuidado
a
mais
se
precisa
realmente
ter
– no
entanto
são
ossos
que
se firmaram
em
atos
da
vida
e
que
mantém
marcas
das
estradas
percorridas ao
longo
do
tempo;
os
olhos
não
enxergam
tão
bem
como
antigamente- no
entanto
vêem
mais
que
imagens
vêem
sons,
gostos,
sabores,
sentimentos,
odores.
O
corpo
vai
precisar
de uma
ajuda
com
o
tempo,
mas
não
é medicalização
que
deve
ocorrer
no
idoso.
Deve-se,
sobretudo,
procurar
o
sentido
de
sua
vida.
Se
esse
não
for encontrado
realmente
nada
mais
restará a
não
ser
ir
de
consultório
em
consultório,
realizar
exames,
tomar
calmantes,
analgésicos.
É
que
talvez
estejamos
nos
esquecendo
que
não
é
só
o
físico
que
sofre,
mas
o
psíquico
e
que
em
muitos
casos
o
primeiro
é
só
manifestação
do
segundo.
Podemos
dizer
que
tratar
um
idoso
é
fácil?
Com
certeza
não.
Ao
contrário,
é
muito
difícil.
Mas
a
dificuldade
maior,
a
barreira
maior,
está
em
vencermos
preconceitos,
tabus.
Talvez
quando
deixarmos de
considerar
o
idoso
como
um
Objeto
isso
se torne
mais
fácil.
Muitos
idosos
mantêm-se
ativos,
saudáveis.
Outros
ao
contrário,
tornam-se desanimados,
apáticos,
extremamente
doentes
ou
incapacitados. A
dificuldade
de
cuidado
e
tratamento
torna-se
maior,
é
verdade.
É
aqui
que
o sofrimento se acentua. É
aqui
que
o
indivíduo
pode
ser
feito
Objeto
de
forma
mais
gritante.
Como
incapacitado,
que
outra
escolha
tem
além
de submeter-se à
vontade
de
outros?
Que
defesas
tem às
ações
impostas?
Talvez
antes
de procurarmos
um
sentido
para
a
vida
desse
idoso,
devamos
procurar
um
sentido
para
nossas
vidas
enquanto
cuidadores,
familiares.
Enquanto
encararmos a
situação
como
uma
cruz,
assim
ela
será.
Quando
a virmos
como
uma
bênção
tudo
fica
mais
claro.
Precisamos
entender
que
a
vida,
por
vezes,
tem
suas
leis
imutáveis,
porém
que
também
podemos melhorá-la
segundo
nossos
atos.
Envelhecer,
se
não
morrermos
antes,
todos
vamos. O
que
será de
nós
em
nosso
tempo
de velhice? Será
que
acharemos
normal,
ótimo
e
maravilhoso
quando
cometerem
conosco
os
atos
que
hoje
cometemos
com
esse
nosso
velho
“chato”,
doente,
ranzinza?
Será
que
na
nossa
velhice seremos
como
a
dona
Lúcia?
Ou
nos
sobrará
ir
de
consultório
em
consultório,
tomar
caixa
atrás
de
caixa
de
calmante?
Nos tornaremos
objetos
segundo
nossa
própria
escolha de
exclusão?
Ou
nos manteremos
Sujeitos
Psíquicos,
com
nossa
história,
nosso
Eu,
nosso
sentido
de
vida,
mantendo
nossa
própria
verdade?
Talvez o trabalho
mais árduo do que se constituir Sujeito Psíquico, o que deve
acontecer desde a infância, seja manter-se assim na velhice. Por
isso devemos mudar, hoje, a nossa vida. Precisamos ser ativos, de
mente aberta, dispostos para a vida, conquistar amigos, formarmos
nossa história bem consolidada, para que na velhice possamos, então,
ter a força que a dona Lúcia tem – querer manter-nos vivos, tendo
coragem e vontade para as coisas da vida. Se não fizermos isso a
nosso tempo, nos perderemos no tempo da velhice.
Temos uma
idade
ideal
para
fazer
algumas
coisas
na
vida?
Não.
Uma
certa
idade
(a
que
temos) é a
idade
certa
para
querer
viver,
dar
um
sentido
para
a
vida
e
aí
quem
sabe
então,
possamos
ser
felizes.
Não
feliz
como
todos
imaginam,
mas
como
podemos, ao
nosso
modo
ser.
Um
ser
feliz
de
dentro
para
fora
o
que
só
traz
brilho,
energia
e
saúde
de
fora
para
dentro.
Um
diurético,
um
anti-hipertensivo,
um
broncodilatador,
um
antidepressivo
ajudam e
por
vezes
são
extremamente
necessários
na velhice.
Porém,
fundamental
é o
sonho
e a
vontade
interior
de
viver
ativamente.
Esse
é
um
remédio
que
só
cada
um
pode se auto-administrar e
estipular
sua
dose
diária.
Na velhice,
não
deixe de
ir
ao
médico.
Mas
não
deixe de
ter
vontade
e
coragem
na
vida.
26 de maio de 2005
– 15 horas |
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