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Não era rotina
Por João Batista
Alves de Oliveira “Seu Francisco”, todos os dias levantava-se pontualmente às 6 horas da manhã. Após os cuidados de higiene, tomava seu copo de leite batido com banana, mamão, mel e aveia; afinal, o doutor tinha recomendado e por realmente lhe fazer bem, não faltava em um só dia. Para acompanhamento, comia duas torradas com geléia de amora, que era de sua preferência. Terminado o desjejum, lavava e guardava as peças utilizadas e encaminhava-se para o jardim que há 5 anos cultivava tão cuidadosamente. Era um jardim harmonioso, bem cuidado, alegre, colorido, exalando suaves odores florais. Tinha o canteiro das rosas, das margaridas, das mariquinhas; no lado direito um ipê branco e ao centro uma orquídea. A grama era uniforme e de um verde brilhante. Diariamente cuidava carinhosamente desse jardim, sem pressa, com felicidade. Diziam até alguns que ele conversava com as flores. Também – diziam eles – é velho é está ficando esclerosado. Na casa ao lado, que permaneceu vazia por muito tempo, passou a viver uma nova família – eram pai, mãe e dois filhos. O maior, 8 anos de idade, Lucas, diariamente observava, através da janela de seu quarto, “Seu Francisco” no jardim. Dia após dia foi aumentando em Lucas a vontade de ir conversar com “Seu Francisco”. Sua mãe sabendo disso, desaprovou a idéia e disse: - Meu filho, o vovô não vai gostar de ter você por lá, e depois dizem que ele é meio “avoado”, que até vive falando com as flores. - Mamãe, ele não é meu avô e não fala sozinho, ele está realmente conversando A mãe, não entendendo nada e querendo desestimular o filho da idéia, voltou aos seus afazeres. Lucas, no entanto, ficou na janela observando. Dia após dia “Seu Francisco” repetia seu ritual. Lucas cada vez mais desejoso de ir até lá. Numa bela manhã de clima suave, de um brilho especial no céu, “Seu Francisco” chega ao jardim. Lucas, na janela de sua casa, observa algo diferente de todos os outros dias – “Seu Francisco” trazia nas mãos uma sacola de onde começou a retirar pétalas de rosas, nas cores vermelha, amarela e branca, e a espalhar pelo jardim, de forma que o que era bonito ficou melhor ainda. Parece que naquele dia ele conversava mais que o habitual. Movido pela mais profunda curiosidade e por um outro sentimento que não sabia qual era, Lucas, aproveitando a distração da mãe com os serviços da casa, saiu de mansinho e escondido e foi até o jardim do “Seu Francisco”. Andou lentamente, como que flutuando e parou atrás de “Seu Francisco” que por um tempo não percebeu sua presença. Lucas, ali parado, viu o belo jardim que era imensamente melhor assim de perto. Sentia na face uma leve brisa; inalava um suave odor floral. Perdeu-se no tempo até que de repente, assustando-se, ouviu: - Olá, pequeno rapaz. Veio ver de perto a beleza do meu jardim? - Sim, sempre o vi da minha janela, mas aqui de perto é muito mais bonito. - Cuido carinhosamente dele – disse “Seu Francisco” - não como uma rotina, mas por profundo amor. E continuou – se não me entendeu, te explico. Faz cinco anos que minha esposa faleceu e é esse o tempo que cuido deste jardim. Tivemos uma vida maravilhosa juntos. Antes de morrer ela, no meu desespero, disse para que eu fizesse e cuidasse de um jardim aqui em nossa casa, pois ali ela estaria sempre comigo. Cada flor aqui presente é como se fosse um pedaço de nossa vida – algum sem cor, outro colorido – como as flores. A árvore do ipê é consistente e grande como nosso amor. Essas pétalas, espalhei hoje por ser a data em que nos separamos. As vermelhas são pela dor da separação, as amarelas pela saudade e as brancas pelo nosso amor. Todos os dias cuido do jardim, converso, não com as flores, mas com ela, Laura, viva em minha vida. Cuido de cada flor com carinho como cuido do sentimento verdadeiro que tenho dentro de mim. Era isso que Laura queria quando me pediu para criar e cuidar do jardim. Lucas ouvia calado, perplexo com a força do sentimento de “Seu Francisco”. E assim, calado, foi embora, confuso, pois na saída não sabia se imaginara ou realmente ouvira uma voz de resposta à conversa de “Seu Francisco”. Até hoje, vinte anos após, Lucas, ainda não sabe se ouviu ou se imaginou. Mas sabe que o coração é o nosso jardim, os que amamos são nossas flores, que só um sentimento verdadeiro pode nos fazer descobrir a cor do amor e que em nosso jardim sempre teremos pétalas vermelhas, amarelas e brancas, afinal a vida é assim, uma mistura de dor, saudade e amor. Todas as manhãs, até hoje, vinte anos após, em outra casa, em outra cidade, Lucas ainda olha pela janela esperando encontrar novamente um “Seu Francisco” no jardim ao lado. _______________________________ João Batista Alves de Oliveira é Médico e mestrando em Gerontologia na PUC-SP |
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