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Velhice*

Anna Burgatt Meneghesso

Alguém passa a seu lado, arcada, muitas vezes amparada, você já pensa: velhice.

Talvez, velhice seja um arquivo, com livros empoeirados, amarelados e, dentro deles, só lembrança.

Lembranças da minha infância, lembranças da minha vida. Uma vida muito pobre, mas nem por isso infeliz.

Meu colchão de palha de milho, meu travesseiro de paina. Pés descalços e as brincadeiras da infância: amarelinha, lenço atrás, esconde-esconde, pula corda e passa anel.

Ferro e fogão a carvão.

Palha de aço para raspar o assoalho, cera e o pesado escovão.

Num radinho, ouvíamos todos os dias os capítulos emocionantes da novela “Pelos caminhos da vida” e às seis horas da tarde Manoel Vítor irradiava a “Hora da Ave Maria”.

Fazendo às vezes do papel higiênico, no banheiro papel de pão ou outro papel qualquer.

Na adolescência, aprendíamos a bordar, costurar e, preparar nosso enxoval. Tudo ficava guardado até o casamento, inclusive a virgindade.

A beleza das serestas. Meu irmão no violino, seu amigo Luiz ao violão.

O bonde aberto, o bonde fechado, também chamado de “camarão”.

Os castiçais emprestados da igreja para os velórios em casa. Luto fechado, meio luto: blusa branca e saia preta.

As matinês de cinema: dois filmes e um seriado, e os lanterninhas atentos, vigiando os namorados.

À noite, a pracinha, o flerte. Os moços ficam parados e as mocinhas desfilam.

Bailes comuns, bailes da saudade, onde os mais conservadores colocam um lenço entre as mãos. O bolero, a valsa, o chorinho.

Luz nas casas e nas ruas principais.

Não me lembro se, aos poucos ou, de repente, o mundo começa a mudar. Ferro elétrico, fogão a gás, enceradeira, máquina de lavar e tudo mais. E o trabalho braçal, vai ficando para trás.

Chega também a televisão.

As calças compridas para as mulheres, vistas como peça vulgar, passam a ser roupa normal. Com o tempo, normal fica também a minissaia, o biquíni e o nu total.

Num marco total do século o homem pisa na lua. Chegam o computador, a internet e o telefone celular.

Quando jovem, pouco falava e muito sonhava. O sonho vinha através da música, da poesia e do romantismo da época. Parece que estou tendo duas vidas: uma sonhada e, agora, outra real.

Fico feliz ao perceber que os jovens de hoje já procuram a poesia e a seresta e o que é ainda é melhor, cantam as músicas que outrora já contávamos.

Quem sabe queiram juntar a liberdade de hoje, com os sonhos de antigamente.

Às vezes caminhando, fico imaginando. Como será a velhice quando ela se consumar?

E penso que assim será:

As lembranças, como folhas secas se soltando, e caindo nos arquivos daqueles a quem tanto amamos...

* Publicado no Jornal Compuctador nº 7, novembro de 2000, secção Crônicas, Poesias e Contos, página 7. Endereço do site: http://cogeae.pucsp.br/compuctador

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